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Belisquem-me

Em Michael Moore em Novembro 17, 2008 às 3:19 am

michaelmooreQuem entre nós não ficou sem palavras? As lágrimas surgiram. Lágrimas de alegria. Lágrimas de alívio. Uma chocante, imparável, derrocada de esperança numa era de profundo desespero.

Numa nação que foi fundada no genocídio e posteriormente construída à força das costas dos escravos, foi um momento inesperado, chocante na sua simplicidade: Barack Obama, um homem bom, um homem negro, afirmou que traria a mudança a Washington, e a maioria do país gostou dessa ideia. Os racistas estiveram presentes durante toda a campanha e nas urnas de voto. Mas já não são a maioria, e veremos a sua chama do ódio apagar-se no nosso tempo de vida.

Houve outra importante “primeira” última noite. Nunca antes na nossa História um candidato dedicadamente pacifista foi eleito presidente em tempo de guerra. Espero que o recém eleito presidente Obama se recorde disso enquanto pondera expandir o esforço de guerra no Afeganistão. A fé que agora temos perder-se-á se ele esquecer o principal motivo pelo qual derrotou os seus colegas Democratas nas primárias e posteriormente derrotou um grande herói de guerra nas eleições gerais: o povo da América está farto de guerra. Cansado e farto. E as suas vozes soaram alto e em bom som ontem.

Decorreram uns indesculpáveis 44 anos desde que um Democrata candidatando-se a presidente recebeu apenas 51% do voto. Isto porque a maior parte dos americanos nunca gostaram realmente dos Democratas. Olham para eles como alguém que raramente tem os tomates para levar a tarefa até ao fim ou capaz de se erguer em defesa dos trabalhadores que dizem apoiar. Bem, esta é a sua oportunidade. Foi-lhes entregue, através do voto público, na forma de um homem que não é um espertalhaço do partido, nem um burocrata vitalício do jogo de cintura. Irá agora transformar-se num deles, ou irá forçá-los a serem mais como ele? Rezamos pela segunda hipótese.

Mas hoje comemoramos este triunfo da decência sobre o ataque pessoal, da paz sobre a guerra, da inteligência sobre a crença de que Adão e Eva conviveram com os dinossauros há uns meros 6.000 anos atrás. Como irá ser ter um presidente inteligente? A ciência, banida durante oito anos, regressará. Imaginem auxiliar as maiores mentes do nosso país enquanto estas procuram a cura para a doença, descobrem novas formas de energia e trabalham para salvar o planeta. Eu sei, belisquem-me.

Podemos, só talvez, também vislumbrar uma era de uma abertura refrescante, de sabedoria e de criatividade. As artes e os artistas não serão vistas como inimigos. Talvez a arte seja explorada de modo a descobrirmos as verdades supremas. Quando FDR foi silenciado com a sua derrocada em 1932, o que se seguiu foram o Frank Capra e Preston Sturgis, Woody Guthrie e John Steinbeck, Dorothea Lange e Orson Welles. Durante toda a semana fui assolado pela comunicação social que me perguntada, “bem, Mike, o que vais fazer agora que o Bush vai embora?” Estão a gozar? Como será trabalhar e criar num ambiente que apoia e incentiva as artes, a ciência, a invenção e a liberdade de sermos aquilo que quisermos ser? Vejam um milhar de flores desabrochar! Entramos numa nova era, e seu eu pudesse resumir o nosso primeiro pensamento colectivo desta nova era, seria este: Tudo é Possível.

Um afro-americano foi eleito presidente dos Estados Unidos! Tudo é possível! Podemos arrancar a nossa economia das mãos dos ricos inconsequentes e devolvê-la ao povo. Tudo é possível! Todos os cidadãos terão a garantia de cuidados de saúde. Tudo é possível! Podemos deixar de derreter as geleiras polares. Tudo é possível! Aqueles que cometeram crimes de guerra serão trazidos perante a justiça. Tudo é possível.

Na verdade não temos muito tempo. Há muito trabalho a fazer. Mas esta é a semana para todos nós nos regozijarmos com este grande momento. Sejam humildes no que a ele diz respeito. Não tratem os Republicanos no vosso dia a dia do mesmo modo com que eles vos trataram nos últimos oito anos. Mostrem-lhes a graça e a bondade que Barack Obama exalou durante a campanha. Apesar de lhe terem chamado todos os nomes e mais alguns, recusou-se a descer ao nível do esgoto e a atirar-lhes lama em retaliação. Conseguimos seguir o seu exemplo? Eu sei, será difícil.

Quero agradecer a todos aqueles que dedicaram o seu tempo e os seus recursos a fazer com que esta vitória se concretizasse. Foi um longo caminho, e muito dano foi infligido a este grande país, sem falar dos muitos de vós que perderam os vossos empregos, que faliram à força das contas médicas ou sofreram com a partida de um ente querido para o Iraque. Iremos agora trabalhar para reparar esses danos, mas não será fácil.

Mas que começo! Barack Hussein Obama, o 44º presidente dos Estados Unidos. Uau. A sério, uau.

Michael Moore

05 de Novembro de 2008

artigo originalpágina de Michael Moore no ZSpace

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